vendredi 20 janvier 2017

Patrifocalidade e experiência mística

A patrifocalidade judaica

De acordo com os rabinos especialmente da corrente reformada, a família judia como aparece na Torá é patrifocal, e os costumes seguem a tradição religiosa do marido e não da mulher. Por isso, não se poderia falar em tradição matrilinear dentro do judaísmo. A matrilinearidade, então, será um idéia que surgirá mais tarde, e que nunca se tornou uma norma unânime para todos os judeus. Aliás, podemos dizer que a matrilinearidade foi introduzida por rabinos ucranianos nos pogroms de Kirovohrad, em Kiev, em abril 1881, depois do assassinato de Alexander II. O objetivo da medida era dar às crianças de legitimidade social, já que muitos estupros tiveram lugar nessa época.

Mas, podemos dizer que a transmissão matrilinear no judaísmo foi codificada pela primeira vez no Talmude, no Kidushim 68 TB, no Tratado da Mishná. O princípio da transmissão matrilinear, foi assim discutido no Talmude de forma a deixar para que definições posteriores pudessem optar ou não pela matrilinearidade. Se fizermos uma leitura da Torá em sua literalidade vemos que as pessoas são apresentados por sua ascendência paterna, como é o caso, de Josué, filho de Nun, e de Rachel, filha de Labão, por exemplo. Mas encontramos também Bethuel, filho de Milca, e Dinah, filha de Leah. As leis da herança e partilha de terras são baseadas no pai, daí o episódio inédito das filhas de Tzelofehad. E a herança sacerdotal e levítica é transmitida exclusivamente pelo pai.

Alguns historiadores conservadores, como rabino Shaye Cohen, afirmam que o princípio da matrilinear foi introduzido na Mishná, e rompeu com a lei da patrilinearidade. Ou seja, podemos dizer, apesar dos exemplos dados acima, da citação do nome de mães, que o princípio da matrilinear é desconhecido na Torá e nos escritos do primeiro século da Era Comum. 

Michael Corinaldi, professor de direito na Universidade de Haifa, no entanto, nos apresenta algumas razões que devem ser levadas em conta para que a transmissão matrilinear seja base da nacionalidade. Em primeiro lugar, o fundamento biológico, já que a identidade da mãe é certa, e a do pai pode ser questionada. Em segundo lugar, o fundamento sociológico, pois a educação é transmitida pela mãe. E não podemos esquecer, sob este ponto de vista, que a identidade judaica é muito dependente da educação. E, em terceiro lugar, o fundamento político durante as guerras judaico-romana, quando os filhos das mulheres judias estupradas pelos romanos eram reconhecidos como judeus e não romanos.

Há ainda outros fatores que devem ser levados em conta, como o fundamento demográfico, já que muitos judeus morreram na guerra, e foi decidido, então, que as crianças nascidas como judeus, fossem consideradas filhas de pais estrangeiros. E há ainda o fundamento jurídico, já que no direito romano, as crianças nascidas romanas, de mães não romanas, recebiam a cidadania da mãe e eram excluídas da herança do pai e não recebiam os benefícios de um filho de cidadania romana. E a lei talmúdica segue esse pensamento, quando considera que o filho ilegítimo de mãe judia tinha o direito de usufruir seus direitos como cidadão de Eretz Israel. 

Ou seja, nos casos de casamentos mistos, a criança herdaria o judaísmo através da mãe. Em casos normais, herdaria o estado do pai. O judaísmo objetivo da mãe, no entanto, seria o pré-requisito para que isso acontecesse, o que nos leva a pensar que a transmissão matrilinear está presente em qualquer caso.

Já a determinação da nacionalidade israelense a partir da mãe é o oposto do que é feito na maioria dos países. Mas há uma pressão crescente a favor a exclusividade da herança matrilinear, principalmente por parte dos movimentos judaicos progressistas, presentes nos países anglo-saxões. Tal leitura no entanto não nega os ensinos do Talmude, mas se baseia numa adaptação aos tempos atuais. Para muitos rabinos, especialmente do judaísmo reformado, a família hebraica como aparece na Torá é patrifocal, então, nada indicaria uma obrigação fechada exclusivamente na matrilinearidade. Esses rabinos aconselham a conversão da mãe não-judia, para dessa maneira facilitar a educação dos filhos dentro do judaísmo. Tal princípio, da transmissão matrilinear ou patrilinear foi adotada oficialmente nos EUA em 1983 e é válido também na Inglaterra. 

Assim, embora com presença forte da matrilinearidade, o judaísmo continua a ser uma religião patriarcal. O sexo extraconjugal é proibido, as mulheres adúlteras eram apedrejadas, e deviam usar o véu para não ser fator de sedução. A segregação das mulheres em Israel ainda é praticada, o sangue menstrual é demonizado, e a circuncisão estabelece o direito sagrado do pai.

A experiência mística

A Torá diz que o Pai, visto e lido como o Eterno, dá como ele quer, quando ele quer, para quem ele quer. Esta experiência judaica traz embutida algumas informações importantes sobre o Pai, ele é pessoal e livre para tomar as decisões que quiser. Ao escolher o povo de Israel como sua testemunha na história, o Pai particularizou um povo para o bem de todas as nações. E foi assim que decidiu revelar o mistério guardado no coração de cada criatura, apesar do egoísmo presente nos corações. O mistério é que todos somos portadores de uma dignidade inalienável, nativa e universal.

E se o Pai dá livremente, ele recebe livremente. O dar do Pai é o mesmo para todos, já que ele dá a si próprio, mas cada pessoa recebe o dom de forma singular, porque o encontro com o Pai é sempre pessoal e pessoalizado. O que é uma pessoa? Quem é uma pessoa? Fora do Pai, não está sob a autoridade humana decidir quem é pessoa e quem não é. Na Torá, a experiência expressa o que todos os humanos percebem, sabem, sentem, o mistério de Pai. E todos os humanos reconhecem, de forma diferentes, que é um risco todo e qualquer encontro com ele. E as palavras confiança, fé, posicionamento traduzem esse trágico e inusitado encontro, é experiência compartilhada por todos que, através do tempo e espaço, reconheceram fragilidade e vulnerabilidade diante do Pai. 

O encontro com o Pai é sempre místico, oferece um momento de aventura que transcende o humano. Por isso, místico é o ato de procurar igualar o dar do Pai com uma abertura total, para receber pessoalmente na medida maior da liberdade aquilo que ele entrega. Por isso, o extraordinário da experiência mística, que parte da experiência ordinária com um superar inimaginável da riqueza da vida e da realidade, cria sempre um momento de graça. É a graça mística presente em todo encontro com o Pai. Essa graça, presente do Pai, é sobrenatural, pois é mistério divino que opera em nós. E assim o Pai renova a natureza humana, porque o dom recebido de Pai chama a uma resposta corajosa, fiel e pessoal, sem a qual não pode haver aliança e novo sentido de vida. E o selo da autenticidade está no trabalho abnegado que a visita do Pai nos leva a realizar.

Para o místico, o conhecimento de Pai não é uma abstração, mas um acontecimento decisivo, um encontro que clama por resposta. Existe encontro místico quando o racionalista ou cético em todos nós é derrotado. O Pai não pode ser reduzido a uma realidade puramente externa, ou pior a uma divindade bloqueada nas imagens congeladas de um catecismo colorida ou conhecimentos higienizado. O Pai, o primeiro, conhece e ama o ser humano misticamente, cada ser humano. A revelação do "Eu Sou" não termina com a confissão de fé que diz "você é", mas na amizade com ele que leva a dizer: "Eu estou com você".

É por isso que os místicos costumam comparar sua experiência com a de amantes ou cônjuges que constroem relacionamentos, em que são envolvidos total e completamente. Eles se tornam-se, pelo encontro, um com o outro. Com o Cântico dos Cânticos, com Teresa de Ávila e Edith Stein podemos dizer que a união mística é o resultado tanto que suga e quer o amor eros, como o amor do Pai, que olha com piedade sua criatura como caritas e ágape. No ponto onde estes dois amores se encontram, a união pode ser realizada. 

Assim, podemos descrever o lugar e o desafio da experiência mística: é a união no coração do ser humano e seu Pai. Neste contexto, as uniões pessoais que se pode fazer com Pai são singularidades, como a de Shaul, o rabino de Tarso.


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