dimanche 12 février 2017

De Charles Darwin a Teilhard de Chardin

O desafio da existência

"A linguagem humana é profunda como o mar, e as palavras dos sábios são como os rios que nunca secam” (Provérbios 18.4).

Nos séculos dezenove e vinte, o protestantismo fundamentalista e a ciência se confrontaram através de porta-vozes muitas vezes brilhantes e referenciais nessas duas áreas. E é esse confronto que José Mário Galdino aborda aqui com maestria, ao analisar dois textos que são expoentes de extremidades: Os fundamentos, discurso e relação entre religião e ciência moderna, obra maior do evangelicalismo conservador, e Religião e ciência: a relação entre a ciência moderna e religião, de Bertrand Russell.
Mas, nesta abertura à reflexão de Galdino, considero que dois pensadores são paradigmáticos de encontros e desencontros do desafio da existência, Charles Darwin e Teilhard de Chardin.
Charles Darwin continua polêmico,  nestes mais de duzentos anos após seu nascimento e mais de cento e cinquenta anos depois da publicação de A Origem das Espécies. Afinal, como sabemos, é difícil, principalmente para o fundamentalismo religioso aceitar que o ser humano, visto como elemento de um ecossistema, não é autônomo e independente em relação às outras espécies.

Da mesma maneira, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, precursor do evolucionismo cristão, foi um cientista e teólogo proibido pela igreja. Só depois da morte, em 1955, aos poucos suas pesquisas e produção saíram do ostracismo. Hoje é leitura obrigatória quando em teologia se discute criacionismo e evolução.

Assim, as discussões sobre a origem da vida continuam a gerar polêmicas, principalmente porque muitos leitores da Bíblia tomam o relato de Gênesis, em seus três primeiros capítulos, como literalidade absoluta. Por isso, as ideias de Darwin causam tanto desconforto hoje como em 1858, quando apresentou a teoria da evolução à comunidade científica.

Quase setenta anos depois daquele desconforto, em 1926, Teilhard de Chardin, com 45 anos de idade, vivendo e trabalhando como paleontólogo em Tientsin, na China, escreveu à sua prima Margueritte Chambom: "Estou decidido a relatar o mais simplesmente possível a experiência ascética e mística que vivo e ensino há algum tempo. Não pretendo abandonar o rigor do cristianismo. Mas quero ir adiante".

Na época de Darwin, outra leitura sobre a origem da vida, defendida pelo pastor William Paley, ameaçou ganhar força: dizia que a adaptação dos organismos vivos era fruto de um projeto inicial, de um desenho inteligente. Paley procurava, dessa maneira, construir uma ponte entre as duas compreensões da origem da existência. A leitura de Darwin, porém, era radical: os seres vivos se desenvolveram a partir de mudanças aleatórias e as particularidades do humano se deram por razões adaptativas.

O Darwin da teologia

Para Chardin, “ir adiante” era uma postura de paleontólogo. Mas ele não era só um paleontólogo, era teólogo e místico. Assim, ir à frente significava que arriscaria se tornar o Darwin da teologia. E, em Tientsin, onde a Companhia de Jesus acabara de abrir um instituto de estudos superiores e para onde foi mandado numa espécie de exílio, pois lá suas ideias não repercutiriam, mergulhou em pesquisas de campo e produção teórica.

É interessante ver que as oposições que Darwin e Chardin enfrentaram foram semelhantes. Ainda hoje, mesmo na Europa e Estados Unidos, a teoria da evolução só é de fato bem aceita em meios científicos. Mas muito possivelmente as reservas por parte da população possam ser explicadas pelos equívocos e folclores atribuídos a Darwin.

Um exemplo é o chamado “darwinismo social", que afirma existir raças superiores e raças inferiores, e que foi amplamente utilizado pelo nazismo. Darwin não defendeu tais ideias. Ao contrário, quando deixou o Brasil disse que não voltaria mais a um país escravagista. Já folclore é a ideia linear da evolução, presente naqueles desenhos de um macaco de quatro, outro semi-ereto na frente e, por último, o homo sapiens. De acordo com Darwin, o homo sapiens não veio do macaco, mas de um ancestral comum tanto ao homo sapiens como aos macacos. E, mais ainda, não há uma espécie menos evoluída e outra mais evoluída: todas emergem como ramificações da vida que se espraia.

A Companhia de Jesus, sem desejar, colocou Chardin no lugar certo, pois em Tientsin estavam sendo realizadas escavações e expedições paleontológicas. De 1923 a 1946, ele permaneceu lá. E não se afastou de suas pesquisas. Aprofundou-se na ciência, a procura de um novo pensar teológico. E foi assim que surgiu sua principal obra, O fenômeno humano (1955), onde apresentou os conceitos que passaram a balizar o evolucionismo cristão. Mas escreveu também outros trabalhos importantes: O coração da matéria (1950), O surgimento do homem (1956), O lugar do homem na natureza (1956), O meio divino (1957), O futuro do homem (1959), A energia humana (1962), Ciência e Cristo (1965).

Chardin formatou novas leituras da evolução, da estrutura orgânica do universo e da tendência do ser a alcançar um estado cada vez mais orgânico, de unificação. O fim da existência passou a ser visto como a convergência das consciências individuais na consciência do centro Ômega, momento de completude do processo evolutivo.

"Uma só liberdade, tomada isoladamente, é fraca, incerta e pode facilmente errar nos seus tateios. Uma totalidade de liberdades, agindo livremente, acaba sempre por encontrar o seu caminho. E eis por que, incidentemente, sem minimizar o jogo ambíguo da nossa escolha em face do Mundo, eu pude sustentar implicitamente, no decurso desta conferência, que nós avançávamos, livre e inelutavelmente, para a Concentração através da Planetização. Na evolução cósmica, poder-se-ia dizer, o determinismo aparece nas duas pontas, mas, aqui e lá, sob duas formas antitéticas: em baixo, uma queda no mais provável por defeito, - em cima, uma subida para o improvável por triunfo de liberdade".[1]

Universo e consciência

O universo, para Chardin, está impregnado de pensamento, o que se torna patente com a evolução, através da crescente complexidade estrutural que a matéria alcança. Chardin intuiu laivos de consciência nos graus ínfimos da existência, no plano físico do universo. A evolução levou esta consciência a revelar-se mais avançada no ser humano. Ora, a organicidade do todo implica uma lógica, seria absurdo determo-nos neste ponto do caminho sem continuá-lo.

Assim, para Chardin, o fenômeno humano não completou a sua trajetória e não alcançou a necessária conclusão, mas tal movimento está implícito na lógica do desenvolvimento do próprio fenômeno. Então Cristo, para este cientista e teólogo, pode ser proposto à ciência como biotipo do fenômeno humano, como modelo que o humano poderá atingir com a evolução, e o Evangelho como a lei social da unidade coletiva representada pela humanidade do futuro. Esse é o processo da evolução, numa correlação das compreensões da ciência e da espiritualidade cristã. E o humano faz parte deste processo.

Chardin constrói, assim, uma teologia da evolução, onde a santificação se dá por meio da presença universal do pensamento imanente de Deus. É a sagração da evolução. Chardin caminhou no terreno do cristianismo, mas fez uma nova leitura da origem da existência, onde a estrutura mais íntima do ser é de natureza psíquica, para concluir que a vida é pensamento coberto de morfologia e a espiritualidade é o ápice da evolução.

Ou como diz numa oração: "Rico da seiva do Mundo, subo para o Espírito que me sorri para além de toda conquista, revestido do esplendor concreto do Universo. E, perdido no mistério da Carne divina, eu já não saberia dizer qual é a mais radiosa destas duas bem-aventuranças: ter encontrado o Verbo para dominar a Matéria, ou possuir a Matéria para atingir e receber a luz de Deus".[2]

Galdino constata que a racionalidade na modernidade e o cientificismo não foram capazes de alcançar todos os registros da vida social, e que o movimento fundamentalista não se rendeu às novidades da modernidade. Ou seja, ainda hoje religiosos cristãos, católicos e protestantes adotam a mesma postura dos fundamentalistas do início do século passado.
O livro de Galdino, por sua profunda pesquisa de autores e pensares, é uma referência, mas também um grito profético, no sentido de que novos ventos cheguem repletos de tolerância para que ciência e religião possam estabelecer suas práticas, reservando espaço para o diálogo. O que nos leva a ler o trabalho de Galdino com entusiasmo e também esperança.
Creio, assim, também, que a partir das vidas de Darwin e Chardin podemos dizer que pensar a existência humana é tarefa aberta e permanente para a ciência e a teologia. E que, mais do que perder-se em formulações dogmáticas, quer na ciência ou na teologia, o desafio humano é a busca para compreender como (ciência) e por que (teologia) estamos conectados à existência e ao Universo.

Jorge Pinheiro
Professor Doutor em Ciências da Religião



[1] Teilhard de Chardin, “La formation de la Noosphère”, Revue des Questions Scientifiques, Louvain, jan. 1947, pp. 7-35.The Future of Man, New York: Harper & Row, 1964.
[2] Teilhard de Chardin, La Messe sur le Monde, Ordos, 1923.
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