vendredi 31 mars 2017

Graça e paz!

Chesed veshalom 
Graça e paz para os nossos corações

Chesed veshalom 
Graça e paz a incendiar de alegria as nossas vidas

Segundo livro de Samuel 23.1-7

“São estas as últimas palavras de Davi, filho de Jessé. Davi foi o homem que Deus tornou importante, que o Deus de Jacó escolheu para ser rei e que compôs as belas canções de Israel. Davi disse: O Espírito do SENHOR fala por meio de mim, e a sua mensagem está nos meus lábios. O Deus de Israel falou, o protetor de Israel me disse: “O rei que governa com justiça, que governa respeitando a vontade de Deus é como o nascer do sol numa madrugada sem nuvens, como o sol que faz a grama brilhar depois da chuva.” É assim que Deus abençoará os meus descendentes, pois ele fez uma aliança eterna comigo, uma aliança bem certa e segura. Isso é tudo o que quero; será essa a minha vitória, e eu sei que Deus fará isso. 23.6 Mas os pagãos são como os espinhos jogados fora: ninguém se atreve a pegá-los com as mãos; para isso é preciso uma ferramenta de ferro ou de madeira; eles serão totalmente queimados no fogo”.

Últimas palavras, primeiras palavras, palavras eternas 

  1. Escolhido/ resgatado pelo Eterno de Israel. Cantor e compositor encantador.
  2. Cheio do Ruach haKadosh – que fala através do coração do poeta, que fala palavras de salvação.
  3. Ele governa com justiça, respeita a vontade do Eterno – e por isso é o sol que nasce numa manhã sem nuvens, como o sol que faz a relva brilhar depois da chuva.
  4. O Eterno abençoará seus descendentes – aqueles que estão debaixo do seu cuidado ...
  5. Porque estamos a falar de berit / de um acordo, de uma aliança do Eterno.
  6. É isso o que eu quero. É isso o que nós queremos.
  7. E o Eterno fará isso no meio do seu povo. Ou como disse o próprio Davi no salmo 121 – “MeAtah VeAd-Olahm … Desde agora e para sempre!”
E por isso nos diz o apóstolo Paulo em sua carta aos Filipenses 1.2 -- “… graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.

Chesed veshalom -- Graça e paz para os nossos corações.

Chesed veshalom a incendiar de alegria as nossas vidas.

Do pastor e amigo, Jorge Pinheiro.

Amém.





Djelem Djelem - Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra

Shalom Alechem - Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra

O Pessach e a Páscoa

O Pessach e a Páscoa cristã


Nosso texto áureo é 

Chegou o dia da Festa dos Pães sem Fermento, dia em que os judeus matavam carneirinhos para comemorar a Páscoa. Então Jesus deu a Pedro e a João a seguinte ordem: – Vão e preparem para nós o jantar da Páscoa. Eles perguntaram: – Onde o senhor quer que a gente prepare o jantar? Jesus respondeu: – Escutem! Quando entrarem na cidade, um homem carregando um pote de água vai se encontrar com vocês. Sigam esse homem até a casa onde ele entrar e digam ao dono dela: “O Mestre mandou perguntar a você onde fica a sala em que ele e os seus discípulos vão comer o jantar da Páscoa.” Então ele mostrará a vocês uma grande sala mobiliada, no andar de cima. Preparem ali o jantar. Os dois discípulos foram até a cidade e encontraram tudo como Jesus tinha dito. Então prepararam o jantar da Páscoa. Quando chegou a hora, Jesus sentou-se à mesa com os apóstolos e lhes disse: – Como tenho desejado comer este jantar da Páscoa com vocês, antes do meu sofrimento! Pois eu digo a vocês que nunca comerei este jantar até que eu coma o verdadeiro jantar que haverá no Reino de Deus. Então Jesus pegou o cálice de vinho, deu graças a Deus e disse: – Peguem isto e repartam entre vocês. Pois eu afirmo a vocês que nunca mais beberei deste vinho até que chegue o Reino de Deus. Depois pegou o pão e deu graças a Deus. Em seguida partiu o pão e o deu aos apóstolos, dizendo: – Isto é o meu corpo que é entregue em favor de vocês. Façam isto em memória de mim. Depois do jantar, do mesmo modo deu a eles o cálice de vinho, dizendo: – Este cálice é a nova aliança feita por Deus com o seu povo, aliança que é garantida pelo meu sangue, derramado em favor de vocês. Lucas 22.7-20. 

E os textos de apoio são Mateus 26.17-25, Marcos 14.12-21 e João 13.21-30. 

1. O que é o Pessach ou a páscoa judaica?

O Pessach é a celebração judaica que recorda a morte dos primogênitos no Egito, a fuga da escravidão e o êxodo dos israelitas para a terra prometida. A palavra pessach significa “passagem”, “travessia”, e Êxodo 12.12-14 Deus conta o que faria. Podemos dizer que o Pessach judaico é a festa da libertação do Egito e a conquista da liberdade em Canãa.

O nome Pessach, Páscoa, foi adaptado pelos cristãos, e como, muito possivelmente, Jesus morreu no dia 14 de Nissan, que é o dia do início de Pessach, se acredita que a última Ceia de Jesus foi um Seder de Pessach, ou seja, um jantar, uma ceia de Páscoa.

2. O que é a Páscoa cristã

Mas, a "páscoa do Senhor", celebrada por Jesus, é diferente da "festa dos pães ázimos" (Levítico 23.6, Lucas. 22.1). 

É sacrifício vicário (“o que faz às vezes de outro”) de Jesus, conforme 

Depois pegou o pão e deu graças a Deus. Em seguida partiu o pão e o deu aos apóstolos, dizendo: – Isto é o meu corpo que é entregue em favor de vocês. Façam isto em memória de mim. Lc 22.19.

É nova aliança de Deus com seu povo, conforme 

Depois do jantar, do mesmo modo deu a eles o cálice de vinho, dizendo: – Este cálice é a nova aliança feita por Deus com o seu povo, aliança que é garantida pelo meu sangue, derramado em favor de vocês. Lucas 22.20. 

É promessa da sua volta, conforme 

Pois eu digo a vocês que nunca comerei este jantar até que eu coma o verdadeiro jantar que haverá no Reino de Deus. Lucas 22.16.

3. Então, o que é a Páscoa do Senhor?

  •  É sacrifício do Primogênito de Deus para nossa libertação do pecado.
  •  É aliança eterna que começa aqui e se projeta na eternidade.
  •  É a Sua volta, quando celebraremos com Ele a festa eterna da Páscoa, que é libertação pecado, mas também celebração da vida eterna!

E é por isso que são cristãos e não judeus. E é por isso que celebram a Páscoa do Senhor e não o Pessach judaico.












jeudi 30 mars 2017

Jewish Sephardic - Ladino - live in Norway - Yamma Ensemble

Israeli song - 'Someone' (israeli music israeli songs hebrew beautiful j...

Marlene Dietrich - Lili Marleen



Lili Marleen

1. Vor der Kaserne
Vor dem großen Tor
Stand eine Laterne
Und steht sie noch davor
So woll'n wir uns da wieder seh'n
Bei der Laterne wollen wir steh'n
|: Wie einst Lili Marleen. :|
2. Unsere beide Schatten
Sah'n wie einer aus
Daß wir so lieb uns hatten
Das sah man gleich daraus
Und alle Leute soll'n es seh'n
Wenn wir bei der Laterne steh'n
|: Wie einst Lili Marleen. :|
3. Schon rief der Posten,
Sie blasen Zapfenstreich
Das kann drei Tage kosten
Kam'rad, ich komm sogleich
Da sagten wir auf Wiedersehen
Wie gerne wollt ich mit dir geh'n
|: Mit dir Lili Marleen. :|
4. Deine Schritte kennt sie,
Deinen zieren Gang
Alle Abend brennt sie,
Doch mich vergaß sie lang
Und sollte mir ein Leids gescheh'n
Wer wird bei der Laterne stehen
|: Mit dir Lili Marleen? :|
5. Aus dem stillen Raume,
Aus der Erde Grund
Hebt mich wie im Traume
Dein verliebter Mund
Wenn sich die späten Nebel drehn
Werd' ich bei der Laterne steh'n
|: Wie einst Lili Marleen
Lili Marleen

Em frente ao quartel
Diante do portão
Havia um poste com um lampião
E se ele ainda estiver lá
Lá desejamos nos reencontrar
Queremos junto ao lampião ficar
Como outrora, Lili Marlene.(2x)
Nossas duas sombras
Pareciam uma só
Tinhamos tanto amor
Que todos logo percebiam
E toda a gente ficava a contemplar
Quando estávamos junto ao lampião
Como outrora, Lili Marlene. (2x)
Gritou o sentinela
Que soaram o toque de recolher
(Um atraso) pode te custar três dias
Companheiro, já estou indo
E então dissemos adeus
Como gostaria de ir contigo
Contigo, Lili Marlene (2x)
O lampião conhece teus passos
Teu lindo caminhar
Todas as noites ele queima
Mas há tempos se esqueceu de mim
E, caso algo ruim me aconteça
Quem vai estar junto ao lampião
Com você, Lili Marlene ? (2x)
Do tranquilo céu
Das profundezas da terra
Me surge como em sonho
Teu rosto amado
Envolto na névoa da noite
Será que voltarei para nosso lampião
Como outrora, Lili Marlene. (2x)

mercredi 29 mars 2017

Família











O caminho, a verdade e a vida

Odós, aletheia, zoé
Jorge Pinheiro, PhD

λέγει ατ ησος· γ εμι δς κα λήθεια κα ζωή· οδες ρχεται πρς τν πατέρα ε μ δι’ μο. ΚΑΤΑ ΙΩΑΝΝΗΝ 14:6 NT Grego: Westcott/Hort. Veja a análise lingüística no final do texto.

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

Odós

Tomé expressou sua dificuldade e Jesus disse a ele: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida".

Uma das linhas-força desta correlação de idéias teológicas -- caminho, verdade e vida --presente na afirmação de Deus, nos remetem a conceitos presentes nas escrituras hebraico-judaicas, na filosofia e mitologia gregas e pensar latino. Mas vamos começar pela ideia de halakha, que trata das obrigações religiosas às quais devem se submeter os judeus em suas relações com o próximo e com o Eterno. Ela engloba todos os aspectos da existência. Mas halakha tem em sentido mais amplo, o de caminho.

Assim, a partir da halakha, mais do que propor uma adoração estática ao eterno, as Escrituras nos falam de andar com ele. Daí a idéia de caminho. O ser humano é colocado a cada momento e a cada dia diante da exigência de exercer sua liberdade e escolher entre o bem e o mal, ou, como diz Deuteronômio 30.15: “Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição”.

A linha-força do caminho da lei ou halakha é extensa e profunda nas Escrituras. E se antes repousava na lei, agora é o próprio Cristo. E é a partir desse conceito teológico que estrutura o pensamento hebraico-judaico, e depois cristão, que podemos entender a afirmação de Jesus.

Os hebreus falaram sobre o caminho que deviam tomar as pessoas. Deus disse a Moisés: “Cuidareis em fazerdes como vos mandou o Senhor, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda. Andareis em todo o caminho que vos manda o seu Senhor, vosso Deus(Deuteronômio 5:32-33). Moisés disse ao povo: “Sei que, depois da minha morte, por certo, procedereis corruptamente e vos desviareis do caminho que vos tenho ordenado(Deuteronômio 31:29). Isaías havia dito: “Os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele.(Isaías 30:21). No mundo novo haveria uma estrada chamada o Caminho de Santidade. Nela, os caminhantes, por simples que fossem, não se perderiam (Isaías 35:8). O salmista orou: “Ensina-me, Senhor, o teu caminho” (Salmos 27:11). Os judeus sabiam muito sobre o caminho do Eterno que deviam seguir. E Jesus disse: "Eu sou o caminho".

Em grego, halakha se transforma em hodós, o caminho mais curto. E uma outra ideia se agrega, meta. μετά, μέt-, nos remete a depois ou que segue e quando se une a οδός, caminho, temos a ideia de seguir um caminho, para chegar a um fim. Assim, na filosofia, o método define um caminho para se chegar ao conhecimento.

Aletheia

Jesus afirmou: eu sou a verdade. O autor dos Provérbios disse: “Porque o mandamento é lâmpada, e a instrução, luz; e as repreensões da disciplina são o caminho da vida” (Provérbios 6:23). O caminho para a vida é de quem guarda o ensino” (Provérbios 10:17). Tu me farás ver os caminhos da vida”, disse o salmista (Salmos 16:11). O ser humano quer conhecer a verdade.

E Jesus responde este anseio ao dizer, “ninguém vem ao Pai, senão por mim”.

Aletheia, em grego λήθεια, tem o sentido de desvelamento: de a-, negação; e lethe, esquecimento. Para os gregos, designava a essência, aquilo que é, e por isso tinha correlação com a arché, com a origem, quer em relação à auto-manifestação da realidade, quer em relação à manifestação dos seres humanos.

Em latim temos veritas, que corresponde a maneira de narrar os fatos acontecidos, e a maneira de narrar determinará a verdade dos fatos.

Então, lhe disse Pilatos: Logo tu és rei? Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve minha voz. Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Tendo dito voltou aos judeus e lhe disse: Eu não acho crime algum nele (João 18: 37-38)

Sobre o diálogo entre Jesus e Pilatos vemos que Jesus não tem dúvida sobre quem é a verdade e Pilatos não sabe o que é a verdade.

É importante compreender que filosoficamente construímos no Ocidente a ideia de verdade a partir de três concepções diferentes, vindas da filosofia grega, do latim, e do judaísmo em correlação com a mitologia grega e o cristianismo.

Na concepção grega, aletheia é o que não mais está oculto, e como tal é verdadeiro, pois se manifesta aos olhos e ao espírito. O falso é pseudos, o encoberto, o que parece mas não é. De acordo com essa concepção aletheia está na essência, sendo idêntica a realidade e acessível apenas ao pensamento, e verdade aos sentidos. Assim um elemento necessário é a visão inteligível, em outras palavras o ato de revelar, o próprio desvelamento.

Na concepção pragmática latina veritas significa exatidão, rigor do que se refere à linguagem como expressão de fatos acontecidos. A concepção latina afirma a capacidade dos seres humanos em descrever com precisão um acontecimento. Essa concepção depende da forma como os fatos são narrados. Nesse ponto a veritas trata de descrever com detalhes o ocorrido no passado.

Observam-se diferenças nas concepções grega e latina. Para a filosofia grega, a verdade faz parte da essência que foi desvelada. Na latina é a precisão dos fatos que são contados que vai determinar se esse fato e verdadeiro ou falso.

Na leitura hebraica, a expressão emunah significa posicionamento, mas também confiança. Nessa expressão há o sentido de comprometimento, mas quando correlacionado com a pistis essa confiança se transforma numa verdade que chamamos fé. Ora, na mitologia grega, Πίστις pistis era a personificação da boa-fé, da confiança e da confiabilidade. Ela aparece sempre ao lado de outras virtudes como a esperança, a prudência e as graças, todas associadas à honestidade e à harmonia entre às pessoas. Mas, equivale sobretudo à fides latina. E a carta neo-testamentária aos hebreus nos vai dizer que é certeza e prova do que não podemos ver. Assim, nota-se que a confiança/fé é a base do conceito. A verdade passa então a ser expressão deste posicionamento e desta confiança/fé, embora pareça absurdo para quem se coloca fora de tal confiança.

Aletheia, então, se refere ao que as coisas são ao serem desveladas, veritas de refere aos fatos que foram relatados, e emunah/pistis se refere àquilo que virá a ser, porque assim foi prometido. Ou seja, aletheia é, tal como se manifesta agora ao nosso espírito, veritas mostra os fatos conforme foram relatados, e emunah/pistis aponta para aquilo que será e que foram prometidas.

Zoé

No hebraico temos a palavra hayah, que traduz a ideia de respirar. O substantivo hayah, no entanto, significa viver, ter vida, sustentar a vida. Se estiver na forma gramatical hifil, que expressa uma ação causativa, tem o sentido de reanimar, reviver, restaurar à vida, o que aponta para o conceito de levantar da morte, ressuscitar.

Zoé traduz a ideia de vida comum a todos os seres vivos. E nesse sentido, a vida animal seria o momento mais simples da vida Bios. A vida animal está lá embaixo, quando comparada a Bios. Afinal, o ser humano é escravo de suas necessidades de sobrevivência. Sua servidão remete a um moto sem fim para atender tais necessidades básicas.

A vida Zoé retrata a simplicidade da vida não qualificada, que por não ser inferior têm como destino ficar oculta. Mas ficar oculta significava ter hábitos moderados no comer, beber, na sexualidade e na não violência. Não havia punições para quem não fosse moderado, mas a moderação na vida Zoé mostrava que a pessoa poderia exercer o Bios político.

Na vida Zoé dos gregos há assim uma desqualificação do corpo (soma) na definição da vida, sem representação política, como no caso dos escravos.

A vida Bios é a vida racional, própria de pessoas ou comunidades. A vida política é a Bios política como uma vida qualificada. Um tipo de vida de pessoa que é admirada por suas ações e condutas. Por sua práxis, pelo que ele faz, e por sua léxis, pelo que ele diz. Práxis e léxis nas pessoas e comunidades possibilitam a existência da polis democrática, e por extensão da liberdade.

Mas quando compreendida a partir do hayah, da vida que ressurge, os cristãos vão além da compreensão grega. Veem Zoé, que tem nela o hayah bíblico, como a vida eterna, dom do Deus Eterno entregue àqueles que aceitam Iesous, como senhor. E a vida Bios passa de fato a ser a vida terrena, que renasce no permanente ciclo de nascimento e morte.

Por isso, Jesus respondeu a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão através de mim.

Análise linguística-gramatical

λεγει verbo - presente ativo indicativo – terceira pessoa do singular lego [leg'-o]: dizer, clamar. 
αυτω pronome pessoal – dativo singular masculino autos [ou-tos’]: pronome reflexivo 
ο artigo indefinido - nominativo singular masculino ho [ho]: o, esse, aquele, ele, ela [geralmente omitido, havendo a necessidade de acrescentar em português].
ιησους substantivo - nominativo singular masculino Iesous [i-ei-sue’]: Jesus (i.e. Jehoshua), o nome do Senhor e de três outros personagens bíblicos.
εγω pronome pessoal – primeira pessoa nominativo singular ego [eg-o’]: Eu, me.
ειμι verbo - presente indicativo – primeira pessoa do singular eimi [i-mi’]: Uma forma prolongada de um verbo primário e defectivo; Eu existo (usado apenas quando enfático) sou, tenho sido, era. 
οδος substantivo - nominativo singular feminino hodos [hod-os’]: Um caminho; por implicação, um progresso; fig. Um modo ou meio. 
και conjunção kai [kái]: e.
αληθεια substantivo - nominativo singular feminino aletheia [al-ei’-thi-a]: verdade, verdadeiro.
ζωη substantivo - nominativo singular feminino zoe [dzo-ei’]: vida. 
ουδεις adjectivo - nominativo singular masculino oudeis [oo-dice]: ninguém. 
ερχεται verbo - presente médio ou passivo depondente indicativo – terceira pessoa do singular erchomai [er’-kom-ahee]: vir, entrar. 
προς preposição pros [pros]: uma preposição de direção; para.
πατερα substantivo - acusativo singular masculino pater [pat-er’]: um pai, fig. lit. parente.
ει conditional ei [i]: se.
μη partícula - nominativo me [mei]: ninguém exceto, sem.
δι preposição dia [dee-a’]: através.
εμου pronome pessoal – primeira pessoa do genitivo singular emou [em-oo’]: de mim.







lundi 27 mars 2017

Yiddish Song - Belz, Mayn Shtetele Belz

Estudos sobre a Decisão Socialista de Paul Tillich

Primeira leitura: Introdução
Estudos sobre A Decisão Socialista de Paul Tillich
Por Jorge Pinheiro

Para Paul Tillich [A Decisão Socialista, Introdução: As duas raízes do pensamento político, Potsdam 1933, Gesammelte Werke, II, pp. 219-365], nem sempre é necessário perguntar pelas raízes de um fenômeno espiritual ou social. Muitas vezes tal pergunta mostra-se supérflua, principalmente quando um testemunho saudável revela a integridade das raízes. Mas quando se apresentam distorções ou desvios, quando o testemunho congela ou a vida principia a desaparecer, então se torna necessário perguntar: quais são suas raízes?

Em 1993, Tillich considerava que esta era a situação do socialismo e, em particular, do socialismo alemão. Para ele, os eventos que preanunciavam a ascensão do nazismo, revelavam o estado de profunda crise do socialismo. E esse estado não só se explicava pelos eventos dos últimos anos, mas deviam ser pesquisadas a partir da segunda metade do século de 19, pois faziam parte de sua constelação histórica de origem. Por isso, acreditava Tillich, a tarefa mais urgente dos anos futuros seria um exame das razões do debilitamento do socialismo. E tal tarefa seria impossível de ser realizada se não se achasse uma resposta à pergunta das raízes.   
Porém, afirmava Tillich, assim que se levanta a pergunta das raízes do pensamento socialista, faz-se necessário ir mais fundo, porque o socialismo é um movimento de oposição, de mão dupla, um movimento de oposição à sociedade burguesa, mas enquanto mediação, uniu-se à sociedade burguesa na oposição às formas feudais e patriarcais de sociedade. Entender esta raiz do socialismo, ajudaria a entender as raízes do pensamento político que lhe deu origem.

É necessário procurar pelas raízes do pensamento político no próprio do homem[1], declara Tillich. Para ele, sem uma imagem do homem, de suas forças e tensões, não se pode dizer nada sobre as fundações políticas do pensamento e do ser político. Sem uma teoria do homem, não se  pode construir uma teoria das orientações políticas.

A antropologia política de Paul Tillich


O homem, afirma o teólogo, diferente da natureza, é um ser dividido. Não importa saber onde termina a natureza e onde começa o homem, não importa que a passagem entre os dois se faça através de lentas transições ou por um salto. O importante é que em determinado momento, a diferença ficou clara.

Há no entanto, para Tillich, um processo vital indiviso, que desdobra natureza sem interrogar nem requerer, um processo que está ligado àquilo que se encontra nele e faz parte do que ele é. Assim, existe um processo vital que deseja saber sobre o homem, e que coloca algumas questões para ele: já não é indiviso, mas também dividido. É idêntico a si mesmo quando diante de si mesmo, no ato de pensar e de conhecer. Mas não apenas isso.

Segundo Tillich, o homem tem consciência de si mesmo, ou em outras palavras, distingue-se da natureza enquanto ser que se desdobra, tornando-se um ser consciente de si mesmo. A natureza ignora esta divisão. Por isso, o homem não é uma combinação de duas partes autônomas, tais como natureza e mente ou corpo e alma, mas um só ser, porém fendido em sua unidade.
   
Estas determinações gerais, considera Tillich, levam a algumas considerações no que se refere à pesquisa do pensamento político. Elas negam qualquer dedução do pensamento político enquanto puro movimento de pensamento, de exigências ético-religiosas, ou considerações ditadas por determinada cosmovisão. O pensamento político vem do homem enquanto unidade. Está enraizada no ser e na sua consciência, mais precisamente em sua unidade indissolúvel. É por isso que não se pode entender um sistema de pensamento político sem contextualizar seu enraizamento no ser humano enquanto ser social, ou seja, o imbricamento de pulsões e  interesses, os constrangimentos e as aspirações constituintes do ser social.

Mas também é impossível separar o ser de sua consciência, ou ver o pensamento político como simples subproduto do ser. Assim, para Tillich, a consciência estrutura todo o ser do homem, todo o ser social, em cada um de seus elementos, inclusive as sensações pulsantes mais primitivas[2].

Quando tenta desfazer laços, explica Tillich, passa-se ao largo da primeira e mais importante característica da essência humana, o que produz uma distorção no quadro geral que ele faz de si próprio, de que há uma consciência inadequada ao ser, uma falsa consciência, mas que não invalida a unidade do ser e da consciência. Isto porque, afirma, o conceito de falsa consciência não é possível quando a coisa que se designa é não conhecível. Assim, a consciência justa é uma consciência que emerge do ser e ao mesmo tempo o determina. Não pode ser uma coisa sem ser a outra, porque o homem é uma unidade na divisão, e desta unidade nascem as duas raízes de todo pensamento político.

A origem do pensamento político conservador  


O homem se encontra enquanto realidade dada, assim como seu ambiente. Mas estar no mundo enquanto realidade significa aquele não vem da si mesmo, que ele não é sua própria origem. Para Tillich, que cita a expressão de Martin Heidegger, o homem é um “ser lançado”. Esta situação leva o homem a colocar-se a questão da fonte (Woher). O que mais tarde vai aparecer como questão filosófica. Mas tal discussão é uma construção, e o mito apresenta a primeira resposta, enquanto determinante para a discussão de conjunto.  

A origem (Ursprung) é o que faz emergir (entspringen). Este aparecimento (Sprung) dá lugar  a algo novo, que não existiu antes, que produz uma consciência própria, diferente da origem. A realidade que somos está colocada, mas também é algo próprio. É uma tensão entre o ser-posto e o ser-próprio.

Para Tillich, a origem não nos liberta. Não se pode dizer que era e que não é mais. Constantemente somos puxados pela origem: ela nos faz emergir, nos segura firme. É ela que nos estabelece como algo, enquanto essência. Dessa maneira, ser-posto no mundo supõe caminhar para a morte.

Assim, para Tillich, a concepção conservadora admite o surgimento do eterno no tempo, que repousa no passado. Por essa razão nega toda mudança, presente ou futura[3]. A força dessa concepção repousa no fato de que considera o eterno como dado e não como resultado da ação cultural e religiosa do ser humano.

A concepção conservadora também reconhece o kairós[4], mas o situa no passado. Desconsidera que se aconteceu no passado como acontecimento único, é ele quem se revela em todos os sim e não do passado, do presente e futuro. Sob tal visão repousa o pensamento político conservador. Perdeu o sentido supratemporal do kairós[5].

O mito expressou com profunda riqueza este estado de coisas, com o testemunho de  objetos e eventos nos quais o grupo humano percebe sua origem. Em todos os mitos ressoam a lei cíclica do nascimento e da morte. Todo o mito é mito da origem, responde à pergunta da providência e conta porque somos segurados na origem e estamos debaixo de seu império. A consciência mítica original é a raiz de todo o pensamento político conservador e romântico[6].

Embora haja pontos de contado entre os conceitos expressos por Paul Tillich e o pensamento marxista, principalmente no que se refere à construção de um pensamento político conservador, é interessante ver semelhanças e diferenças.

Assim, para Marilena Chauí, “um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novo meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo[7].

Para a filósofa brasileira, teórica do Partido dos Trabalhadores, o mito deve ser entendido enquanto conceito antropológico, no qual a narrativa é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade. Dessa maneira, o mito é sempre falsa consciência.

Por isso, para Chauí, a diferença é definida por formação versus fundação. E explica que quando se fala em formação, refere-se não só às determinações econômicas, sociais e políticas que produzem um acontecimento histórico, mas também se pensa em transformação e, portanto, em continuidade ou descontinuidade dos acontecimentos. Assim, o registro da formação é a história propriamente dita, aí incluídas suas representações, sejam aquelas que conhecem o processo histórico, sejam aquelas que o ocultam (isto é, as ideologias).

Já a fundação, considera Chauí, se refere a um momento passado imaginário, tido como originário que se mantém vivo e presente no curso do tempo. A fundação visa a algo tido como perene (quase eterno) que trava e sustenta o curso temporal e lhe dá sentido. A fundação pretende situar-se fora do tempo, fora da história, num presente que não cessa nunca sob a multiplicidade de formas ou aspectos que pode tomar. A marca peculiar da fundação é a maneira como ela situa a transcendência e a imanência do momento fundador[8].

Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimentam-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente. 

O mito, uma crença desvelada  


Paul Tillich vê diferente. Para ele, a exigência que o homem faz na experiência diante do incondicionado não é estranha a ele. Se fosse estranha à sua essência, não lhe seriam concernentes e ele não poderia discernir tal coisa como exigência. Se ela lhe toca é porque coloca diante de seus olhos gás sua essência enquanto exigência. Funda-se a incondicionalidade, a irrevogabilidade com que o dever-ser aborda o homem e exige ser afirmado por ele.

Se a exigência é a própria essência do homem, então ela encontra seu fundamento na sua  origem, e então a providência e o destino não pertencem a mundos diferentes. Ainda, diante do original, o que é requerido é o incondicionalmente novo. Assim, para Tillich, a origem é ambígua. Há nela uma separação entre origem verdadeira e a  origem real. O que é realmente  original não é o que é original de verdade[9].

A realização da origem é esta exigência e este dever-ser pelo qual o homem é confrontado. O “por que” do homem é a realização da sua providência. A  origem real é negada pela origem verdadeira; mas certamente, não é uma pura e simples negação. A origem real tem que levar à real verdadeira, ela é sua expressão, mas também disfarce e distorção. A pura consciência mítica original ignora todas as ambigüidades da origem. É por isto que esta consciência está presa à origem e considera sacrilégio toda a ultrapassagem da origem. Só a consciência que, fazendo a experiência da exigência da incondicionalidade, se livra dos laços de origem e se apercebe da ambigüidade da origem.   

A exigência quer a realização da origem verdadeira. Porém o homem não recebe uma exigência incondicionada de outros. É no reencontro do "eu e você" que a exigência torna-se concreta. Seu conteúdo é reconhecido no você com a dignidade do "eu", a dignidade para ser livre, portador da realização daquilo que  apontada à origem. Reconhecer no você uma dignidade igual ao do eu, isto é justiça. A exigência que nos arrasta à ambigüidade da  origem é a exigência de justiça[10]. A origem não rompida conduz a poderes em tensão que procuram a dominação e destroem um ao outro. Quando a origem é rompida vem o poder do ser, o declínio dos poderes que "expiam e são julgados por seu sacrilégio, de acordo com a ordem do tempo", como já evocou a filosofia grega.

A exigência incondicional eleva acima deste ciclo trágico. Diante do poder e da impotência do ser, opõe a justiça, que provém do dever-ser. Portanto, para Tillich, não há uma simples oposição, porque o dever-ser é a realização do ser. A justiça é o verdadeiro poder do ser. Nisto se torna realidade o que é apontado na origem. Na relação entre os dois elementos da existência humana e as duas raízes do pensamento político, a exigência predomina sobre a pura origem, e a justiça, sobre o puro poder do ser. A pergunta do “por que” é superior à da providência. O mito original não deve representar no pensamento político mais do que uma crença rompida, uma crença desvelada[11].   

Esse é o caminho da utopia. Sem o espírito utópico não há protesto, nem espírito profético[12]. 

Isto é exato na medida em que cada tensão orientada para adiante comporta uma representação daquilo que deve vir e de como se entende a realização desse ideal. Eis porque o espírito da utopia está presente em todo agir incondicionalmente decidido, em todo agir orientado à transformação do presente [13].

A utopia quer realizar a eternidade no tempo, mas esquece que o eterno abala o tempo e todos seus conteúdos. É por isso que a utopia leva, necessariamente, à decepção. Progresso mitigado é o resultado da utopia revolucionária desencantada.

A idéia do kairós nasce da discussão com a utopia. O kairós comporta a irrupção da eternidade no tempo, o caráter absolutamente decisivo deste instante histórico enquanto destino, mas tem a consciência de que não pode existir um estado de eternidade no tempo, a consciência de que o eterno é, em sua essência, aquele que faz a irrupção no tempo, sem contudo fixar-se nele.

Assim, a realização da visão profética se encontra além do tempo, lá onde a utopia desaparece, mas não a sua ação[14].

Metodologicamente, Tillich mostra que toda mudança, toda transformação exige uma compreensão do momento vivido que vá além do meramente histórico, do aqui e agora. Deve projetar-se no futuro, deve entender que há no espírito profético da responsabilidade inelutável um choque entre este kairós[15] e a utopia, que pensa poder fixar a eternidade no tempo presente. Tal desafio não pode ser resolvido por um homem, por mais que encarne o espírito da profecia. O sujeito da transformação será, em última instância, a massa.

A origem do pensamento democrático e socialista


Mas o homem vai além do colocar-se como realidade dada, vai além do saber colocar-se diante do ciclo do nascimento e a morte. Faz a experiência de uma exigência que separou o imediato da vida e o leva a colocar-se diante da pergunta da providência uma outra pergunta: "por que?”

Esta pergunta quebra o ciclo de uma maneira fundamental, eleva o homem acima da esfera do simples viver. Porque é a exigência de algo que não está aí, que tem que se tornar realidade. Quando se faz a experiência desse tipo de exigência não se está mais colado à origem. Vai-se além da afirmação do que já está. A exigência nomeia o que deve ser. E o que deve ser não é determinado com a afirmação daquilo que já é, disso que é, significa que tal exigência impôs ao homem o incondicionado.

O “por que” não está dentro dos limites da fonte. É o incondicionalmente novo. É através do “por que” que o homem deve alcançar algo do incondicionalmente novo. Este é o sentido da exigência, quando o homem, por ser dividido, faz esta experiência. Ele detém um conhecimento próprio, por isso é possível ir além da realidade, além daquilo que o cerca.

Tal é a liberdade do homem: não que ele tenha uma vontade livre, mas não está preso, enquanto homem, ao que está dado. O ciclo do nascimento e morte foi quebrado, sua existência e sua ação não estão amarradas na simples propagação de sua origem. Quando esta consciência se  impõe, são rasgados os laços da origem, o mito original está quebrado. A ruptura do mito original pelo incondicionado de exigência é a raiz do pensamento político liberal,  democrático e socialista.

Mas, a concepção progressista considera o eterno um alvo infinito, existente em cada época, mas que não se apresenta enquanto irrupção. Assim, os tempos tornam-se vazios, sem decisão, sem responsabilidade. Na concepção progressista existe uma tensão diante do que foi. Mas a consciência de que o alvo é inacessível a debilita e produz um compromisso continuado com o passado. A concepção progressista não oferece nenhuma opção ao que está dado. Transforma-se em progresso mitigado, em crítica pontual desprovida de tensão, onde não há nenhuma responsabilidade última [16]. 

Este progressismo mitigado é a atitude característica da sociedade burguesa. É um perigo que ameaça constantemente, é a supressão do não e do sim incondicionados, a supressão do anúncio da plenitude dos tempos. É o verdadeiro adversário do espírito profético [17].

Ser, consciência e socialismo


Para Tillich, as duas raízes do pensamento político mantêm entre elas uma relação que é mais do simples justaposição. A exigência predomina na origem. Considerando as várias tendências políticas, não se pode supor que elas sejam atitudes humanas justificadas. Onde são requeridas decisões, o conceito tradicional de realidade não é aplicável. Outro, no entanto, é quando estamos diante de uma exigência do incondicionado.

As raízes do pensamento político não são apenas pensamentos. O pensamento político é a expressão de um ser político, de uma situação social. Não se pode entender o pensamento quando se subestimam as realidades sociais das quais vem o pensamento político. As raízes do pensamento político não podem agir com uma força igual em todo momento e em todo grupo. Um ou outro pode predominar, depende de uma situação social, grupos ou formas de dominação determinadas. Depende de estruturas sócio-psicológicas, da interação com a situação social objetiva.

A consciência está ligada ao ser, mas esta ligação é funcional, não de ordem biográfica. Existem pensamentos que têm por função expressar o ser burguês, não importa se são de fato aristocratas ou burgueses. E há pensamentos que têm por função expressar o ser proletário, não importa se são expressos por burgueses ou proletários. O fato é que foram os aristocratas que lançaram as bases para sociedade burguesa e que foram burgueses aqueles que deram ao proletariado  consciência deles próprios, o que demonstra que a questão biográfica tem pouca importância.

Pode-se dizer que a distância que separa ser e consciência é necessária para que o ser se eleve à consciência. A consciência supõe não somente uma ligação ao ser, mas também uma distancia que permita reflexão. Assim, o que é abalado em sua ligação original com um grupo ou com uma classe é chamado a dar consciência a outra classe que não é a sua. Marx e Lênin são o exemplo mais evidente disto. Eles mostram que a relação entre a situação social e o pensamento político deve se elevar da esfera biográfica para aquela das relações funcionais.   
   
A palavra princípio serve para caracterizar de maneira global os grupos políticos. O pensamento tem como tarefa extrair uma multiplicidade de fenômenos que constitui a característica comum a todos os indivíduos. Normalmente, se cumpre esta tarefa com ajuda do conceito de essência. Desde Platão, a relação entre essência e o fenômeno domina no Ocidente a teoria do conhecimento. Porém a lógica da essência não é suficiente para explicar as realidades históricas. A essência de um fenômeno histórico é uma abstração vazia, de onde se expulsou a força viva de história.

Por isso, não se pode entender o socialismo se não experimentar a exigência de sua justiça como uma exigência do incondicionado. Quem não é confrontado pelo socialismo não pode falar do socialismo, a não ser enquanto expressão que vem do exterior[18].  Não podem falar dele em verdade, porque é contrário às tendências políticas que defendem. Aí está o nó da origem.

Algumas conclusões


Neste texto, Paul Tillich traduz uma confiança no progresso humano. Parte de uma filosofia política onde seu referencial primeiro é o ser. Nesse sentido, podemos dizer que faz uma fenomenologia política quando analisa questões como o ser, a origem do pensamento político, enquanto mito, e a partir daí procura trazer à tona os elementos não reflexivos do pensamento político conservador.

Lembramos aqui, em passant, a crítica de Ernst Bloch[19] a Freud – conforme exposto por Etienne Higuet --, quando apresenta a Psicanálise como uma volta à origem, que resultaria em conformidade às normas sociais. Assim, o mito não é transformador. Só a utopia, enquanto sonho acordado, é progressivo e pode se apresentar como revolucionário.

Tillich não é tão radical como Bloch ou Marilena Chauí. Ele parte do mito, entendendo que devemos rompe-lo passando através dele, a fim de resgatá-lo. Nesse sentido, os símbolos devem ser atravessados para que se possa conhecer aquilo que ele evoca. E isso é o que deve acontecer em relação ao mito de origem, ele não pode ser abandonado, mas atravessado.

Assim, a questão existencial, presente nessa filosofia política, leva a uma antropologia existencial.

É importante, também, entender que o pensamento político liberal, a que Tillich se refere no texto, fala da experiência liberal européia, que teve sua origem no Iluminismo, na Revolução Francesa e nas constituições do século XIX. Essas constituições foram criticadas por Marx, que não as via como fruto das reais necessidades da sociedade.


Perguntas

1. Até que ponto a Teologia da Cultura pode dizer algo a respeito da ação social e humana?
2. Qual a pertinência do discurso teológico?
3. O que Paul Tillich está produzindo neste texto? Uma história da religião, sociologia da religião ou filosofia da religião?
4. Qual é o estatuto epistemológico e teórico da análise de Paul Tillich?
5. Quais os referenciais de Paul Tillich? Uma filosofia da vida? Qual a validade desses referenciais?



Notas

[1] Paul Tillich, La décision socialiste, Introduction: Les deux racines de la pensée politique, L´être humain et la conscience politique, p. 26 [do original publicado em alemão: Potsdam 1933, Gesammelte Werke, II, pp. 219-365].
[2] Paul Tillich, La décision socialiste,op. cit., p. 27.
[3] Paul Tillich, Kairós II in Christianisme et Socialisme, Écrits socialistes allemands (1919-1931), Les Éditions du Cerf, Éditions Labor et Fides, Les Presses de l’Université Laval, 1992, pp. 255-267, tradução francesa do original Kairós. Zur Geisteslage und Geisteswendung,  Gesammelte Werke, 1926, VI, pp. 29-41.
[4] Paul Tillich ao falar da plenitude do tempo no evento Jesus, explica a construção de sua concepção de kairós: um tempo carregado de tensão, de possibilidades e impossibilidades, qualitativo e rico de conteúdo. Nem tudo é possível sempre, nem tudo é verdade em todos os tempos, nem tudo é exigido em todo momento. Diversos mestres, diferentes poderes cósmicos, reinam em tempos diferentes, e o Senhor que triunfa sobre anjos e poderes, reina no tempo pleno de destino e de tensões, que se estende entre a Ressurreição e a Segunda vinda. Ele reina no tempo presente que, em sua essência, é diferente dos outros tempos do passado. É nessa viva e profunda consciência da história que está enraizada a idéia de kairós, e é a partir dela que deve ser elaborado o conceito de uma filosofia consciente da história. [Kairos I in Christianisme et socialisme, Écrits socialistes allemands (1919-1931), Les Éditions du Cerf, Éditions Labor et Fides, Les Presses de l’Université Laval, 1992, pp. 116-117].   
[5] Paul Tillich, Kairós II, op.cit., p. 260.
[6] Paul Tillich, La décision socialiste,op. cit., p. 28.
[7] Marilena Chauí, Brasil, mito fundador e sociedade autoritária, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2000, p. 9.
[8] Marilena Chauí, Brasil..., op. cit., p. 10.
[9] Paul Tillich, La décision socialiste, op. cit., p. 29.
[10] Paul Tillich, La décision socialiste, op. cit., p. 30.
[11] Paul Tillich, La décision socialiste, op. cit., p. 30.
[12] Para Tillich, o espírito profético está envolvido na situação histórica concreta, tem a coragem de decidir e colocar-se sob julgamento, ao nível do particular. Sem esquecer que sua relação aponta ao incondicionado, e que o ponto mais elevado que é possível alcançar no tempo está submetido ao não. Mas não deverá, por temer o não, perder a audácia do não e do sim concretos. [Kairós II, idem, op.cit., p. 259].    
[13] Paul Tillich, Kairós II, op.cit., p. 260.
[14] Paul Tillich, Kairós II, op. cit., p.261.
[15] E é a partir dessa compreensão do que significa o espírito de profecia no tempo presente, que voltamos ao kairós, mas agora com novos conteúdos, construído enquanto responsabilidade inetulável. [Paul Tillich, História do pensamento cristão, Kairós, São Paulo, ASTE, 2000, p. 24]. Kairós significa tempo concluído, o instante concreto e, no sentido profético, a plenitude do tempo, a irrupção do eterno no tempo. Kairós não é um qualquer momento pleno, uma parte ou outra do curso temporal: kairós é o tempo onde se completa aquilo que é absolutamente significativo, é o tempo do destino. Considerar uma época como um kairós, considerar o tempo como aquele de uma decisão inevitável, de uma responsabilidade inelutável, é considerá-lo enquanto espírito da profecia. [Kairós II, idem, op. cit., p. 259].
[16] Paul Tillich, Kairós II, op.cit., p. 260.
[17] Paul Tillich, Kairós II, op.cit., p. 260.
[18] Paul Tillich, La décision socialiste, op. cit., p.31.
[19] Ernst Bloch, The Principle of Hope, três volumes (Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1986).  Considerado o principal trabalho de Bloch, nele o filósofo marxista faz a crítica da cultura e da ideologia no século XX.