jeudi 20 avril 2017

A praxe solidária

A praxe solidária e a teologia da vida
Questões que um político cristão deve levar em conta
Uma leitura a partir de Enrique Dussel

Jorge Pinheiro, PhD

Devemos nos distanciar (1) do marxismo lido a partir do ateísmo e (2) da religião que faz a legitimação da dominação. E a partir desse distanciamento, procurar definir caminhos para a militância política das comunidades cristãs. E aqui, sem dúvida, encontramos uma complementaridade fundamental e necessária à teologia: a atividade militante dos cristãos no interior das comunidades religiosas é motivada por diferentes opções históricas, tanto a favor da legitimação da dominação, que pode ser chamada de religião super/estrutural, como a favor da crítica da dominação, ou seja, da religião infra/estrutural. Entre os dois extremos situa-se um amplo campo religioso, ambíguo, já que a instituição religiosa necessita tanto do organizador como do profeta. E é a partir da análise dessa ambiguidade que devemos traçar as questões centrais que envolvem realidade brasileira e dão forma à praxe do militante cristão.

O momento analético é a afirmação da exterioridade: não é somente a negação da negação do sistema desde a afirmação da totalidade. É a superação da totalidade a partir da exterioridade daquele que nunca esteve dentro. O momento analético é crítico por isso: é a superação do método dialético negativo. Afirmar a exterioridade é realizar o impossível para o sistema, o imprevisível para a totalidade, aquilo que surge a partir da liberdade não condicionada e inovadora. Como consequência, a analética é prática: é uma economia, uma pedagogia e uma política que trabalham para a realização da alteridade humana, alteridade que nunca é solitária, mas tem o seu centro e fundamento na pessoa real.

Discutir a religião como infra/estrutura e super/estrutura é superar a visão de que as lutas de emancipação no Brasil e na América Latina tiveram origem nos movimentos milenaristas, que se adaptaram e organizaram movimentos políticos ou retrocederam convertendo-se em religiões alienadas no sentido mais limitado do termo. A religião é a primeira consciência que o ser humano tem de si mesmo, e as relações morais, do filho com os pais, do marido com a mulher, do irmão com o irmão, do amigo com o amigo, enfim do ser humano com seu próximo, são relações religiosas.

A religião, enquanto conjunto de mediações simbólicas e rituais, como doutrina explicativa do mundo e que se posiciona a partir da referência ao Absoluto, participa do fechamento do sistema sobre si mesmo. Essa totalidade do sistema é um processo de divinização, que cumpre a função de ocultar a dominação. A noção de religião super/estrutural traduz esse processo de divinização do sistema europeu e depois norte-americano: significa des/historificar a totalidade social, dialetizar negativamente um processo que tem origem, crescimento e plenitude. A divinização leva a um outro processo, à fetichização, que apresenta uma compreensão não/histórica da totalidade social vigente. A fetichização consiste, então, na identificação da estrutura atual com a natureza, ou seja, ela está aí, está colocada por vontade divina.

As massas, enquanto excluídas e passivas, vivem a ideologia das classes dominantes, pois o sistema apresenta de forma ambígua ideais utópicos que oferecem respostas às suas necessidades. Ao aceitar a religião super-estrutural da classe dominante enquanto rito simbólico do triunfo dos dominadores e derrota dos dominados, as massas vivem sob a resignação passiva, a paciência derrotista e a humildade aparente.

A miséria religiosa é expressão da miséria real, entretanto, é também uma forma de protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da pessoa excluída, carente de sentido pleno de vida. A necessidade da religião em abandonar as ilusões sobre sua própria situação é a exigência de que abandone uma situação que necessita de ilusões. Por isso, a crítica da religião é a crítica do sofrimento enquanto expressão de santidade. A crítica da religião não descarta as necessidades reais daqueles que carecem de bens e possibilidades. A crítica da religião denuncia o mito da prosperidade mágica, para que o ser humano pense, para que atue e transforme sua realidade como pessoa consciente.

A tarefa do político cristão solidário consiste em verificar a verdade que está aqui. E é tarefa do cristianismo solidário, que se encontra ao serviço da vida, uma vez que está desmascarada a santidade da auto-alienação humana, desmascarar a auto-alienação em suas formas não santas. De tal modo que a crítica do céu se transforme em crítica da terra, e a crítica da religião em crítica da política.

A expressão religião infra-estrutural indica a anterioridade da responsabilidade prática que se tem com o excluído dentro do sistema. Essa anterioridade não diz respeito exclusivamente à super-estrutura de um sistema futuro, mas diz respeito também à sua infra-estrutura. O ser humano religioso transcende o sistema vigente de dominação e vê como sua responsabilidade o serviço ao excluído. A religião nesse caso é a instauração de uma nova praxe. O fato de que a praxe religiosa infra-estrutural possa se tornar super-estrutural não nega o fato de que a crítica profética continua a irromper na história. Essa presença de responsabilidade social com o excluído mostra a vigência do clamor profético e funciona como freio das pressões alienadas e super-estruturais.

O ateísmo, enquanto negação dessa necessidade de essencialidade, perde sentido, pois, ao negar o Absoluto, afirma mediante a negação a existência do ser humano. Mas o cristianismo solidário não necessita dessa mediação, pois surge enquanto consciência sensível, teórica e prática do ser humano. É autoconsciência positiva do ser humano, não mediada pela superação da religião, do mesmo modo que a vida real é realidade positiva para o ser humano, não mediada pela superação da propriedade privada. O cristianismo solidário surge como negação da negação da emancipação e da recuperação humana, é o princípio dinâmico do porvir, mas não é em si a finalidade do desenvolvimento humano, a forma última e única da sociedade humana.

A militância religiosa faz parte de uma luta mais ampla, onde a religião infra-estrutural cumpre papel de aliado estratégico, levando o militante religioso a assumir tarefas, praxes nos níveis político, econômico e não apenas ideológico. O ateísmo, por isso, oculta, pois fecha as portas ao aliado estratégico, à religião infra-estrutural, que se fará presente enquanto houver seres humanos obstinados pela responsabilidade diante do excluído, sentido incondicional de justiça, esperança de um novo cairos.    

Assim, para o político cristão a história universal é produção humana a partir do trabalho humano, que transforma a natureza e produz o nascimento do ser humano em sociedade. É nesse processo permanente que o ser humano constrói sua essencialidade: do ser humano em direção ao ser humano, como essencialização da natureza, e da natureza para o ser humano, como existência humana.

O êxito nesse processo depende das condições de possibilidade, ou seja, é impossível separar teoria e praxe. Por isso, uma teologia da vida deve saber integrar os princípios enunciados na escolha de fins, meios, e métodos que devem levar à praxe crítica do sujeito histórico, aqueles que estão excluídos do sistema-mundo. Este sistema-mundo ao impossibilitar a produção e reprodução da vida semeia doenças, fome, terror e morte. As vítimas são os seres humanos, cuja dignidade e vidas são destruídas.

A globalidade excludente leva a um assassinato em massa e ao suicídio coletivo. Porém, a praxe do solidarismo enfrenta de um lado o anarquismo contrário à instituição e de outro o reformismo pró-integração. Por isso, estratégia e tática devem ser enquadradas dentro de princípios gerais, ético e crítico, a fim de que de forma factual ético-crítica se possa negar as causas da negação do excluído. Essa é uma luta des/construtiva, que exige meios proporcionais àqueles contra os quais a luta é travada. Mas, se a praxe traduz uma ação des/construtiva, promove transformações construtivas: leva à uma nova ordem com base num programa planejado que é realizado progressivamente, mas nunca totalmente.

La Croix Huguenote -- Apoie!

La Croix Huguenote 
o que somos e nossos objetivos

A Missão La Croix Huguenote, nesta etapa 2017/2018, visa continuar a dar apoio às pequenas igrejas francesas, mas também expandir a ação social solidária com as populações atualmente refugiadas na França. Mas a Missão La Croix Huguenote tem como objetivo chegar também aos países de língua francesa. Essas parcerias entre igrejas francesas, de língua francesa e brasileiras partem do fato de que Deus mantém na França e na Europa um remanescente da histórica tradição reformada, que deseja expandir o Reino, aproveitando o renascimento cristão que pode ser visto em diferentes regiões do continente.

A partir do exposto La Croix Huguenote propõe, para os próximos dois anos (2017-2018):

Apoio e parceria com o pastor Jorge Pinheiro e sua esposa Naira Pinheiro, fundadores da Cruz Huguenote e que, no segundo semestre de 2017, estarão se transferindo para Montpellier com a missão de coordenar a expansão e consolidação do projeto missionário da Cruz Huguenote, que passará a abranger também países de língua francesa na Europa. Sua estratégia inclui:

O acompanhamento e assistência aos pastores brasileiros já instalados em terras francesas e respectivas igrejas, que tem por objetivo a consolidação das parcerias já estabelecidas. Atualmente, cinco igrejas francesas, em diferentes cidades, Montpellier, Lunel, Paris, Biscarosse, e, a partir do segundo semestre de 2017 Lille, têm pastores brasileiros, que se transferiram para a França com suas famílias e estão fazendo a diferença nestas comunidades, assim como nas cidades onde estão instalados.

O apoio e desenvolvimento de ações sociais que contem com o apoio dessas igrejas, assim como de instituições privadas e públicas francesas, visando construir condições de vida digna às populações que hoje se refugiam em solo francês. Exemplo dessa ação é nossa casa para crianças em Drama, na Grécia, e o apoio a jovens refugiados que têm chegado às nossas igrejas.

A visitação a igrejas batistas estabelecidas na França ou em países de língua francesa na Europa e que estão em busca de apoio, bem como a prospecção de pastores brasileiros com potencial e dispostos a assumir o desafio, juntamente com as suas famílias, o que possibilitará a articulação de novas parcerias.

Happy House, o lar de crianças em situação de guerra na Grécia, é um exemplo cristão de solidariedade, desenvolvido pela Cruz Huguenote, que tem por base na França a Igreja  Batista de Montpellier, e que conta com o respaldo do governo grego.

Isto porque é na Grécia que muitas crianças fugidas da guerra na Síria e regiões em conflito no Oriente Médio chegam de barco. Muitas dessas crianças são órfãs, enquanto outras são abandonadas no cais do porto, para que seus pais possam continuar viagem ao coração da Europa.

Desde Novembro de 2015, a Happy House atua em Drama, cidade no nordeste da Grécia. O objetivo da casa é fornecer a essas crianças em situação de  guerra, um lar, amor cristão e um futuro.

Faça parte do projeto Cruz Huguenote. Apoie e viaje conosco para a França, em oração e através de participação financeira pontual, para a instalação do casal em Montpellier, e/ou participação financeira mensal, durante os próximos dois anos (2017-2018).

Em Cristo e por Cristo,
Jorge Pinheiro & Naira Pinheiro.